sexta-feira, 18 de março de 2011

"Ti Chico Padeira"

Na aldeia a ocupação maioritária da população era o fabrico artesanal de calçado, em oficinas de sapataria, com 5 ou 6 oficiais, 1 ou 2 aprendizes e claro o mestre. Em certas ruas, existiam vários destes espaços, atingindo no final dos anos 60 um total de sete dezenas de estabelecimentos. Uns com maior dimensão que outros, mas todos eles com capacidade de produção suficiente para dar o sustento a um substancial número de famílias. Esta actividade preenchia a maior fatia da população activa da localidade, abrangendo todos os escalões etários, desde os 10 anos até aos sessenta e tais. Nessa altura ninguém usufruía de qualquer aposentação para poder sobreviver. Estes locais eram o ponto de encontro de idosos e outras pessoas, que já não estavam activas profissionalmente. Deste modo passavam o tempo acompanhados por alguém que estaria sempre pronto para os ajudar, mas também para fazer uns gracejo ou dizer umas piadas. Cultivava-se assim uma sã convivência, não querendo com isto dizer que não houvesse alguns momentos de tensão. Eu era miúdo com 6 ou 7 anos e o meu pai também era "mestre" e consequentemente proprietário duma dessas oficinas. Os seus trabalhadores, lembro-me que tinham o hábito de, por eu estar sempre por ali, me incentivarem a fazer algumas tropelias, próprias para a minha idade. Numa oficina mesmo em frente, laborava o "Ti Chico Padeira", que vivia numa localidade vizinha. Deslocava-se diariamente de bicicleta para o trabalho. Como tinha que passar lá o dia, o homem transportava consigo a bucha para consolar o estômago à hora do almoço. Consideravam eles que este facto poderia transformar-se em motivo de chacota e zombaria. Mandaram-me a mim ir questioná-lo, de forma mal-intencionada, se estava a roer a côdea?
Eu, sem perder tempo e sem qualquer delicadeza, fui logo a correr interpelar o dedicado operário:
-Ó "Ti Chico" está a roer a codita, está?
Claro que a resposta veio assaz, precisa e também não menos violenta:
- Estou , estou ó "paneleirito"!!!

sábado, 12 de março de 2011

"Ir de caldeirinha"

Ti Rabeca era um camponês, já entradote, simpático que morava nas traseiras dum familiar meu. Sempre que ia visitá-lo era frequente encontrar esta figura genuína e brincalhona. Como estava sempre bem disposto e humorado, aproveitava logo a ocasião para dizer uma chalaça das suas. Num domingo à noite era uma altura pouco recomendável para se andar pelas ruas da aldeia, devido ao excesso de consumo de vinho tinto, "virado", de certeza, se fosse no verão. Entrei numa taberna, das muitas que por lá existiam, deparei-me com o campesino, e verifiquei que tinha bebido uns copitos a mais que a conta. Estava cambaleante e mal se aguentava em cima das pernas. Era uma situação de risco, pois uma queda nestas idades pode ser fatal. Eu, mais um outro sóbrio freguês do estabelecimento, tomámos a iniciativa de o levar à "caldeirinha", à sua precária habitação, em segurança e onde a sua mulher já o esperava. Claro que ele não andava. Simplesmente era arrastado por nós os dois, não com muita dificuldade, porque ele, e a maioria das pessoa nessa altura, não sofriam dessa quase desconhecida doença chamada obesidade. Chegados a casa, esperávamos abalar sem nos depararmos com qualquer situação menos agradável. Engano nosso. Ao sairmos, fomos violentamente insultados pelo Ti Rabeca, que nos acusava de o levarmos a casa sem qualquer justificação, sentindo-se ele em perfeitas condições para se deslocar sozinho e que lhe faltava ainda beber um não sei quanto número de copos de tinto... Ora toma!!!!!!!!!!

sexta-feira, 11 de março de 2011

JAB

Era alto, esguio, pouco simpático quando estava sóbrio mas jocoso e alegre quando bebia uns copitos! JAB no dia, a dia da aldeia era pacato, mas ao fim de semana aproveitava para se divertir à sua maneira. Num domingo ao entardecer, quando o peso do álcool se começava a fazer sentir, pediu à sua mulher e companheira para que lhe cosesse umas calças, que estavam a precisar de um remendo. Como esta não estaria muito satisfeita com o estado deplorável em que ele se encontrava, negou-se pura e simplesmente a efectuar a tarefa solicitada. Ele não insistiu muito no pedido, abeirou-se dissimuladamente da fogueira que crepitava num canto da casa, acabando por meter as calças dentro duma panela de ferro. Sentado num pequeno banco de cozinha, ia mexendo o conteúdo da panela com uma colher de pau.
-Que fazes homem?- questionou a mulher.
-Estou a coser as calças!!!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Alcunhas

Neste simpático povoado serrano todas as pessoas possuíam uma alcunha e algumas delas até eram bastante engraçadas... Não vou referencia-las aqui mas explicar porque motivo isto acontecia. Os nomes mais vulgares eram José, Maria. Joaquim. Manuel, António. Poder-se-ia distinguir e identificar os habitantes pelos respectivos apelidos, o que não resolveria nada, pois também era uma repetição de Costa, Silva, Pereira,etc. Assim, era muito mais fácil utilizar uma alcunha, que por vezes encaixava na perfeição.

Tio José Pinheiro

Numa localidade do interior pobre e abandonado vivia o Tio José Pinheiro. Ocupava o seu tempo cultivando alguns bocados de terra. Era um homem com uma sensibilidade e astúcia pouco comuns. Certo dia, sentindo a presença de um amontoado de crianças, abeirou-se do grupo e inquiriu um deles:
- Ouve lá ó meu rapaz, chega-te aqui ao pé de mim. Consta por aí, que és muito bom aluno na escola?
- Sou sim senhor. - respondeu o miúdo prontamente.
- Ai sim? Responde-me lá a esta pergunta: O que é a higiene?
-A higiene é a limpeza!!!
- Ai sim, e então porque é que ontem me foste sujar os alhos, seu porcalhão?
(Como seria de imaginar o termo utilizado não foi exactamente "sujar" mas aquele que se emprega em puro vernáculo português, que eu, por razões óbvias, me abstenho de referenciar).

sábado, 26 de fevereiro de 2011

João-Sem-Dúvidas

O João-Sem-Dúvidas era um jovem pouco letrado, com a 3ª classe antiga, mas com uma vontade desmedida de mostrar serviço. Dizia que não havia ninguém que se comparasse com ele a notar uma carta. Perdia-se de amores por qualquer uma rapariga acabada de formar (professora, advogada, enfermeira, etc.) - profissões femininas que na altura não abundavam na aldeia. Assim nenhuma recém-licenciada escapava à sua prosa apaixonada. Apesar das respostas às suas investidas nunca acabarem por surgir, no seu imaginário existia sempre uma confiança impressionante, dando sempre a entender que estava tudo a correr às mil maravilhas. Talvez devido ao facto de ser fumador, apresentava os dentes negros e sem sinais de asseio.Questionei-o se costumava lavar os dentes e se a sua figura pouco atractiva não poderia prejudicar futuros relacionamentos. A sua resposta não tardou, totalmente desprovida de preconceito:
-Não rapaz, foi coisa que nunca lavei e, também não é preciso!!!

Tia Maria Cigarra

Figura pequena e franzina, era incontornável a sua propensão para nos dar umas secas intermináveis, sobre os mais variados temas. A tia Maria Cigarra apesar de analfabeta, surpreendia-nos imenso, pois tinha tudo memorizado e apreendido através da tradição oral e não necessitava de consultar fosse o que fosse para nos "bombardear" durante mais de uma hora com uma quantidade apreciável de cantilenas, lengalengas, orações e rezas. Um dia perguntei-lhe até que localidades ela já tinha viajado, respondendo-me de imediato que nunca tinha saído da aldeia, porque se dava muito mal nos carros e nem a Fátima, nunca tinha ido !!!